Monday, May 19, 2008

LEMINSKI

SOBRE POESIA - LEMINSKI


Um avô como exemplo, faço poesia, sem interrupção, desde que me conheço por gente.

Nunca quis ser outra coisa.

Aos 34 anos, acho que tenho direito a alguma opiniões.

Minha poesia aventureira tem um passado de freira e puta.

No ponto de origem, a empolgação pelo legado heleno-latino. Horácio, Ovídio, Catulo. Clareza e saúde mediterrânea.

A descoberta do haiku. Síntese e vazio zen.

O encontro com a poesia concreta, a vanguarda, o espaço, o ideograma, as linguagens industriais.

O impacto de Maiakoviski. Caetano, Gil, tropicália.

A mutação da letra de música popular. O coloquial. O cantabile. Humor/cartum.

Da poesia brasileira, menos.

Drummond, só uma dose simple para saber o barato que dá.

Cabral, por dever do ofício.

Oswald, já muito tarde para alterar rumos.

Com os demais, só contatos didáticos.

Nunca fui muito fanático Fernando Pessoa, de quem gosto mais pelo processo do que pelo do produto que, às vezes, me dá a impressão de mero ardil, saltos ornamentais numa piscina vazia.

Houve tempo em que fiz poesia rica. Mas era um Brasil de tão individada.

Hoje é mais pobre. Mas com menos dívida externa.

Evito a literatura.

É mitologia, ideologia, religião.

Procuro enxergar o texto à luz dos signos, da linguagem, da semiótica.

Poetas me interessam na medida da sua originalidade e coerência estrutural.

Faço questão de não me repetir, nem em sagues nem em soluções.

E sempre tive aversão natural ao surrealismo, pelo metafórico, pelo arbitrário, pelo "profundo", pelo psicológico, pelo típico.

Me deixo enganar às vezes pelo bem-feito e pelo bem acabado.

Mas estou alerta a que as coisas novas costumam pientar em estado acabado, irregular, "errado", discutível, problemático, perigoso, "experimental".

Não é minha inteção fazer poesia voltada radicalmente para a construção, a produção de matrizes novas para uma sensibilidade nova.

No que faço, subsiste um componete acentuado de expressão, de comunicação, portanto. Isso só é possível com um certo teor de retundâncias, de "facilidades", cuja desordem controlo e regulo.

Mas não tenho obsessões, não sou poeta de temas.

Tenho um horror pop a qualquer palavra que obrigue o leitor normal a ir no dicionário.

O resultado deve ser raro, os ingredientes têm de ser simples.

Tem um difícil que é fácil. E um fácil que é muito difícil. Prefiro este. Contra os aparos persas, diria Horácio.João Gilberto é um dos nomes tutelares da minha poesia.Uma poesia básica. Elementar como um abc ou uma tabuada.Tamanho não é documento. No meu modo de ver, a brevidade pertence à essência mesma da poesia.

Detesto poesia dita profunda. Estou cagando e andando para a psicologia.

Não tenho psique. Sou apenas uma besta dos pinheirais.

Na mesa da poesia, prefiro carne sem gordura, os ovos crus, a água na temperatura ambiente, a voz natural.

Poesia tem que me surpreeender. Poesia envolvente e insinuante me cheira a vigarice. Eu vejo logo o truque. Eu quero o susto e o eco do susto.

Criativamente, prefiro a companhia dos programadores visuais e dos músicos. Não consigo aprender nada com escritores.

Poesia, aliás, é território limítrofe entre o verbo e outras artes.

Ficção é literatura. Poesia, não. Um poeta, embora use palavras, está mais próximo de músicos e plásticos do que de ficcionistas que usam, aparentemente, as mesmas palavras que ele.

E mais próximo da fonte da fala.

Os signos com que falamos pertencem a uma família de signos completamente distinta da família dos signos com que escrevemos.

Falamos com ícones. Escrevemos símbolos.

A fala tem valores de entonação, cadência, melodia: é iconica, como no desenhos, a foto, o cartum, a dança, o judô.

A escrita é simbólica, arbitrária, esquisofrênica, repressiva.

O negócio da poesia é ficar brincando nas fronteiras.

95% da poesia que se faz e se publica por aí não tem nem 5% de poesia.

Começo a gostar da poesia 70% paar cima.

Fazem prosa empinhadas em linhas. Se pelo menos fosse boa prosa!

O baixo teor de informação (estética) do texto brasileiro é relativo a nossa condição de nação periférica, obscurantista, colonial, lusa, patriarcal, católica, mais de imitar que de pensar e criar?De qualquer forma, não acho que compactuar com subdesenvolvimento e redundância seja a solução. E voto no 14bis de Dumont para totem da tribo.

Poesia da música popular pode ser inculta (até é bom que seja).

Poesia no papel tem que ser informada.

Os que defendem uma poesia desprevinida esquecem que os grandes poetas do Brasil têm sido intelectuais de amplo saber e múltiplos interesses ( Bandeira, Drummond, Cabral, Murilo, sem falar no Mário).

A única exceção aparente é Oswald. Oswald é outro papo.

Mas penso que execivo amor aos síbolos é amor à morte.

Prefiro a vida, esse signo sempre incompleto.

Poesia, para mim, tem que ser alegria e esperança. O puro júbilo do objeto, esplendor do aqui e do agora. Ou a canção assobiada que ajuda a caminhar nas estradas, na viagem rumo à Utopia.

Cedo me dei conta que poesia não altera porra nenhuma do real histórico.

Quem quer fazer da poesia bandeira de guerra ou tribuna, errou de profissão e escolheu o intrumento inadequado.

Não que a poesia brotar do político ou do social, mais expecíficos. Pode. E até acho deve, num país como esse.

Mas que pinte do modo específico da poesia, no ser da linguagem.

Querem transportar a gravidade dos temas que abordamos (o perário, a miséria, a fome, a desgraça) para sua poesia. Mas um poema convencional continua medíocre mesmo que invista contra toda a opressão do mundo. Fenômeno mais de sociologia da literatura que de poesia, a imensa maioria dos poemas sociais que se vê por aí será um dia apenas índeces do estado de espírito de nossas elites escrevedoras nesta quadra feia e triste de nossa história.

Que ficou da imensa literatura e poesia abolicionista e replubicana que tomou conta do Brasil no final do Império?A poesia fala uma lígua. A História, outra.

Traduções são possíveis mas sujeitas ao estatuto de todas as traduções: infidelidades, erros, equívocos, más interpretações.

A poesia retundante, banal, presa a veículos convencionais, é mais provável. E vai prevalecer quantitativamente, sempre.

Mas é totalitarismo querer que todos façam a mesma coisa.

Ótimo que façam coisas extremas, estranhas, difíceis.

Maravilha que o pessoal todo admitisse que algumas pessoas façam coias diferentes, especiais, fora do igual.

O que a gente vê é uma intolerância monolítica dos setors mais politizados e progressistas (pelo menos, da boca para fora) em relação aos criadores mais independentes e dissoantes, como Caetano e Gil.

Não tem um jeito só de ser radical.

Quem não teme, não oprime. Nem reprime.

Aqueles que vivem legislando "o poeta deve", "o poeta não pode", 'isso não é poesia", "poesia tem de ser assim ou assado", nada entendem de poesia e querem apanhar o vento com a rede de caçar borboletas.

A poesia, vida, liguagem viva, vaza todas as frestas.



É disso que o povo gosta.


Paulo Leminski

1979

7 comments:

Anonymous said...

Uma poética como aquela dos antigos, em que a métrica e os temos correspodiam a gêneros de enorme rigidez, é claro, atrai os olhos e ouvidos de uma audiência que espera, do poeta, uma obediência incondicional aos preceitos da arte. Vide Píndaro, o maior de todos os antigos. Por outro lado, a aversão ao surrealismo me chama a atenção, precisamente porque este movimento desejou tudo, menos o típico: os surrealistas não trabalhavam a poesia, porque esta era engendrada pelo Inconsciente, até onde me concerne. Ñão havia um tipo, um arquétipo, mas imagens inconscientes dos conteídos da alma. Mas Leminski é grande nesse fácil que é difícil: o encontro daquela palavra nada pedante e que fala ao coração dos homens, tal me parece o seu mérito.

Interessante: a poética de Leminski é muito mais da mordida velada do que do rugido público, mas, será que se ele fosse um anônimo, que se introduzisse nas savanas para conhecer os leões, suas palavras fariam este sentido?
Como poderia a selva mesclar os grilhões de uma métrica preceituada e elevada com a linguagem de fácil acesso? Deveria ele ser um bardo entoando uma canção para cavaleiros estridentes? Que leões dela fruiriam em meio à mordacidade do banquete? Haveria interesse em ouvi-lo? Um bardo entoando um metro alexandrino, elevado, logo, rugindo, não seria arrogante demais para coraçoes belicosos?
Mas Leminski é a receita mediana: entre a gravidade e a puerilidade.

Nada como a honra preceder o indivíduo.

Leonardo, Pirituba

Nelson Maca said...

Já fui Leminski 100%: literatura, filosofia e vida. Ía em mesmo bar que ele lá em Curitiba; sentava numa mesa próxima para ouvi-lo apenas. Depois fui ousando e, já quase ao final de sua vida, chegeuei a sentar na mesma mesa em Bares como o pop Camarim e o saudoso Bar do Cardoso (grande poeta da Serra do Mar). Eu ouvia apenas! E me encantava. E escrevia no rastro do bigodudo Camiquase! Depois evolui para outras paisagens, sequências e trilhas sonoras. Ficou-me do Leminski sua extrema. Poética e contundente leveza. Sua defesa visceral do Poeta Independente. Mas muitos outros amores poéticos hoje interferem em mim-linguagem. Apesar de agora mesmo estar iniciando uma articulação de um grupo de pessoas muito-muito jovens mesmo,para declamar apenas o inspirado Leminski,já não leio com tanta aderência suas palavras, embora ainda me embriague na beleza de seus textos teóricos ou críticos. Problema é que tornei-me sou um sujeito bem vadiozinho cheio de amores e paixões incondicionais nas muitas esquinas que encruzilho. Hoje ando por aí, não mais às escondidas, com Agostinho Neto, Senghor, Cèsaire, Adão Ventura... Algo além desta corrente apresentada por Leminski e que vai de Oswald a Caetano Veloso, passando por uma loga linha bem conhecida já nossa. Enfim e, justamente, queria, enquanto poeta que também pertence a determidas
"correntes de afinidades", dizer que penso que a poesia tem várias vias, assim como os leitores tem vários olhos, e ouvidos!
Nelson Maca - Blackitude.BA

Anonymous said...

Diferentes ouvidos, diferentes olhares: a luta parece essa hoje em dia, no império da mesmice. Digo isso como indivíduo, não como pessoa ligada a este ou aquele grupo. É precisamente o indivíduo enquanto poeta que me parece interessante em alguns escritores, e não a pessoa do poeta. Tiremos a assinatura de Pessoa, alguém lerá Tabacaria? Tiremos a rúbrica de Leminski, alguém fará caso de seus versos? Quem valoriza os tigres e sua sagacidade solitária? Vejamos o exemplo de Manoel de Barros: o homem deveria constar da FUVEST, mas não. Graças a Deus que ainda lemos João Cabral, mas em virtude do seu comunismo, nas altas rodas já se critica duramente sua poesia, pelo viés de sua racionalidade: "os comunistas sào racionais, estragam a vida das emoções". O contrário também vale: "não lerei Nelson Ascher, porque ele é da Folha". Para onde vamos? Sempre a fama do poeta, se ele é de direita ou de esquerda, preto ou branco, gay ou hetero, pobre ou rico, consciente ou inconsciente,humilde ou arrogante, sempre essa fama na mira e nunca a poesia no alvo.

um abraço,
Leonardo, Pirituba

Anonymous said...

"Não há dúvida que o meu verso é também o meu quilombo ardente...
Atento às doutrinas absolutas que querem escalpelar o pixaim"

Nelson Maca -
Apenas expondo meus sentimentos poéticos!

Anonymous said...

Viva as várias vias e vozes da poesia! Viva sua pluralidade! Píndaro cantava as glórias de seus heróis,tão gregos quanto ele!

Alguém se arrisca a adotar um tigre?

de quem já tem a marca de leão e selvagem no nome,
Leonardo
Pirituba

Anonymous said...

"A grécia é o berço do Teatro...
Grego!"
Ariano Suassuna (Aula Magna)

-Nelson Maca
Fui...

Anonymous said...

Viva Suassuna...viva seu auto da compadecida e seu pedra do reino. ele bebe na fonte de Gil Vicente e outros, mas segue o cordel nos seus diálogos, aquele cordel substancial que investe na peleja dos argumentos (tào mais potentes quanto mais próximos do saber popular). a religião ali comparece como crítica. Viva Suassuna e sua poesia de identidade BRASILEIRA.

um abraço,
Leonardo, Pirituba