Friday, June 26, 2009

CRÔNICA DE ANIVERSÁRIO

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AMIGOS DÃO SORTE - Sérgio vaz

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São só 16.380 dias, parece pouco, porém de onde venho chegar nesses números são muito importantes. Nada a ver com numerologia, mas com sobrevivência. Nasci contra a vontade dos astros no vale do Jequitinhonha, norte de Minas Gerais, o lugar mais pobre do mundo. Dois irmãos não tiveram a mesma sorte. Minha mãe era negra, meu pai continua branco.
De forma irônica, a parteira que ajudou minha mãe a dar a luz tinha um olho só, mas com espírito iluminado, disse que eu era um bitelão. Era um vinte seis de junho de mil novecentos e sessenta e quatro, inverno no sudeste, as vinte e uma horas e trinta minutos, do signo de câncer. Um dia como outro qualquer, tanto é, que às vezes, até eu esqueço.
Cresci sem bolo, sem vela de aniversário, sem pedidos, sem brinquedos e sem desmerecer ninguém, durante muito tempo o travesseiro foi meu melhor amigo. Ele era triste também. Aprendi a dizer a verdade com ele. Mentir é coisa minha.
Sem sono passei muitas noites tentando enganar carneirinhos. Contava de dois em dois. Dormir doía, assim como a vida.
Demorei pra gostar de viver e tinha uma tristeza que me visitava até mesmo nos dias de alegria. Por conta disso, aprendi a sorrir com economia. Quando dei por mim, por conta do desuso, alguns dentes me abandonaram. Deixava pra rir aos domingos.
Não tinha nem oito anos vi um homem morto caído nas garrafas dentro de um bar. Ele tinha um buraco na testa. Durante muito tempo achei que os fantasmas que me adotaram saíam dali. Daquele buraco. Não senti pena. Nem medo. Nem inveja.
Achei esquisito como a morte se apresentou pra mim, assim, dessa forma tão violenta.
Como naquela época morria muita gente assim, com buracos no corpo, acharam por bem fazer um cemitério onde meu time jogava bola. Se já não bastassem os meus fantasmas...
Quando o asfalto chegou tatuando as ladeiras, descia de carrinho de rolimã rindo como se fosse feliz, como se fosse outro. Não sei porque, mas o carinho do vento deixava a gente besta. Tinha um amigo que morava num barraco de madeira que ria também. Um vez, eu e ele, fizemos um carrinho com pedaços da sala da mãe dele.
Um dia, cansado de bolinha de gude e empinar pipa em dias sem vento, a maça do amor lambeu meu coração. Achei que estava doente. Tão desacostumado com a alegria, chorei de felicidade. Lágrimas doces. Não é coisa de poeta, eram doces mesmo. Meu travesseiro chorou também. Foi a primeira vez que me senti um bitelão. Não lembro mais do rosto dela. Ela tinha todos os dentes, mas era eu quem ria pelos dois. Como ria naquela época.
Nessa época comecei a trabalhar todos os dias: Sábados, domingos e feriados.
Anestesiado pelo amor não percebi a tristeza fazendo sombra no meu sol. Quando ele se foi, o amor, trabalhar me ensinou o valor da liberdade. Sem saber onde era Palmares fiquei ali por doze anos.
Então, passei a amar com mais frequência, para esquecer o trabalho Por solidariedade alguns amigos iam brincar comigo no trabalho. Na senzala, Nelson Mandela começou a fazer sentido pra mim. Zumbi também.
Ainda por cima servi o exército, então não era uma, mas sim, duas senzalas. Um escravo para duas senzalas. Meu irmão fugiu. A escrava Isaura levava uma vida bem melhor que a minha. Ainda por cima ela não tinha que estudar. Era branca. E novela, por mais longa que seja, tem hora pra acabar. Pra mim todo bar tem um pouco de navio negreiro.
Lia os livros como quem foge das galés. Cada remada, um livro. Cada livro um continente. Gabriel Garcia Márquez me ensinou a não ter medo de oceanos. Neruda, a amar e despedir. Clarice, atalhos para o coração. Quintana, a ser moleque. Gullar, a sujar o poema.
Lendo Victor Hugo descobri que já não era escravo de ninguém. De nada. Só de mim mesmo.
Cansado da banda de Chico, "fim de semana no Parque Santo Antônio" dos Racionais me pegou à toa na vida. Analfabeto, escrevi alguns poemas que viraram livros. No lançamento fiz frango frito com salada de maionese. Isso já faz vinte anos. Ou, sete mil duzentos e oitenta dias.
Numa fábrica sobre ruínas ajudei a construir um sonho que tinha, sem saber que tinha, em seguida, o sarau, que ensinou outras pessoas a gostarem de poesia na periferia. O GOG estava nesse dia que a gente botou fogo no pavio. Ele viu.
Tem gente que voltou a estudar só para aprender a escrever poemas. Foi no sarau que conheci o seu Lourival, Dinho Love e Dona Edite. E mais um bando de gente sem noção da realidade. Gente que sonha enquanto faz. Um povo lindo e inteligente.
Voltei a sorrir no lugar que me fazia chorar. Outro dia soltamos mais de quinhentas bixigas no ar, todas com poesia. Aprendi a joelhar e pedir perdão.
Tem dias que o sarau tem mais de duzentas pessoas ouvindo e falando poesia. Outras pessoas também escreveram livros na quebrada. Tem gente que não gosta de mim por causa disso. Outras já gostam. Vai entender. Engraçado, de tanto sofrer acabei fazendo outras pessoas felizes.
Uma vez uma estava sorrindo distraidamente e uma pessoa me perguntou por que, naquele tempo não sabia, agora eu sei. O amor de deu uma mulher e uma filha. Família me deixa feliz.
A felicidade tem dívidas comigo, por isso não faz mais do que a obrigação me manter alegre e satisfeito. Mesmo feliz estou sempre revoltado.
Michael Jackson Acaba de morrer. Gostava mais dele quando era preto. Lá pelos anos setenta, quando eu era triste também. Sabia dançar, agora... Perdi alguns amigos que não sabiam que gostava deles. Devia dito quando vivo. Não acredito em vida após a morte. Gosto de risco de desaparecer.
Está a maior garoa lá fora. Faz frio também. Dias de frio são bons para remoer lembranças. Meu aniversário cai sempre na época de frio. Por isso careço de abraços. E de fogueiras.
Não sei quem me disse que estou ficando velho, desconfio que seja o contrário. Apesar dos cabelos que começam a embranquecer estou aprendendo a ser jovem, mas quando corro não da pra disfarçar que passei dos quarenta.
Sabia que de vez em quando eu fico rindo sem saber por quê. Deve ser riso represado. Rir é da hora. Agora que acostumei ando esperto. O destino não é confiável. Gosto de rir com amigos. Falando em amigos. Tenho alguns. Amigos são pessoas que a gente escolhe pra sorrir com a gente. Pode até chorar, mas tem que rir também.
Descobri com o tempo que amigos dão sorte.
Queria agradecê-los. São 16380 dias. Sozinho ia ser foda.
Sintam-se abraçados.

16 comentários:

Fernanda Moraes said...

Poeta,
ler você é muito gratificante,é muito bom...
Texto lindo,como todos os outros.Tem setimento e essência como poucos...Dá pra ver daqui de tão longe e SENTIR.
Fiquei emocionada hoje:o carinho do vento realmente é maravilhoso,é feito carinho de mãe,de mulher guerreira,de iansã,o próprio vendaval...Que você sempre sinta o vento por perto,você e todos os seus...
100 anos!


Fernanda Moraes,carioca,uma quase jornalista(diplomada!).
Beijos.
fernandamvn@yahoo.com.br

Mjiba said...

Me senti abraçada pelo seu texto,pela sua vivência...às vezes não sabemos nem descrever quem são os nossos amigos..pessoas que sempre estão nas horas oportunas e importantes, aparando a lágrima antes que ela se desmanche no rosto ou se espedasse no chão...
Parabéns pelo texto, varias figuras de linguagem que adorei como a tatuagem da rua...
Feliz aniversário..muita paz, amor e saúde...
beijocas poeticas
Elizandra

Robson Canto said...

Ah num disse?... Que você tava com uma carta na manga taí o nome do livro de Crônicas: "AMIGOS DÃO SORTE"
Até domingo

Maria Ester said...

Olá poeta Sérgio o aniversário é seu e nós somos presenteados e presenteadas pela belíssima crônica. Parabéns! Felicidades junto a sua família e pessoas que amas. Que tenhas anos e anos de vida, contagiando a todos nós que temos o privilégio de partilhar de sua vida, mesmo que seja à distância. Falas em frio, rsrsrsrs, aqui hoje tínhamos em nossa cidade um temperatura de mais ou menos 5 graus. Tivemos no estado uma cidade com a tempreratura: 4 graus abaixo de zero. Sinta-se abraçado por esta gaúcha que o admira muito. Com respeito e admiração, Ester.

Anonymous said...

Parabéns Vaz!
No dia do seu aniversário você nos presenteia com este texto lindo. Um texto caudaloso. A lembrança é um novelo que não tem fim. Sua escrita de poeta torna a prosa envolvente. Drumond era assim quando se arriscava na crônica. A partir de uma situação cotidiana, aparentemente banal, criava um universo em esperial. Você é o cara. Talvez você não tenha dividdido muito sua tristeza mas você é bem mão aberta com as alegrias.Continue assim. Alegria é aquele tipo de coisa que quanto mais se dá, mais a gente tem.
Eleilson Leite

Estrangeira said...

Sorte minha tê-lo como amigo. Sorte maior ainda de fazer parte dessa história.

Paz & Bem

Paulo de Poty said...

Caralho véi! Tu faz aniversário e presentei os outros...belo texto cara. "Demorei pra gostar de viver...", me senti falando isso cara. Parabéns meu velho, um forte abraço.

dulixo said...

Sérgio Vaz...Sérgio faz..o mano é sagaz...se duvidas olhe para atras...o tempo passando...os cabelos brancos vem chegando...e as palavras? essas continuam cortantes...lapidadas agora como diamantes...consequIencia de tristezas e felicidades ...que construiram uma forte identidade...de quem consegue dia a dia alcançar sua meta...a periferia agradece sua vinda nobre Poeta!

Tubarão

CogitaSom said...

Salve Poeta, parabens pra você, tiu. Fico feliz por você exitir e ser a pessoa que é, contigo eu aprendi a somar e dividir e a sorrir também, muito louca essa parada.
Depois que comecei a colar na cooperifa minha vida mudou muito, você não tem noção do bagulho.
Acho que os tristes se entendem, por que da tristeza, só podemos voltar pra alegria, é isso aí mano valeu pelos momentos de alegria e de riso solto, igual naquele dia em 3 Córregos! rsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrs


Fanti Manumilde

fantimanumilde@hotmail.com

Robson Canto said...

Fogo na Favela

Primeiramente desculpa Sérgio Vaz não está com você no seu aniversário. Pois estou aqui na Pilões ajundando um pessoal que tiveram que sair de suas casa devido o incendio na firma do lado de casa. Abraços poeta. Vida longa meu querido!!!

Elisangela Batista Barbosa said...

Aventura bonita de se ler essa vida que você conta, que assumiu a despeito de... tudo! Parabéns poeta, parabéns por todos esses dias onde mais que qualquer coisa você parece não ter se furtado de estar presente.

Um abraço,
Elis

fabricio pontes said...

SALVE MESTRE SEGIO VAZ
QUANDO PUDER DÁ UMA OLHADA
NO MEU BLOG DE POEMAS
DEIXA UM COMENTARIO LÁ OK
SUA PALAVRA É DE SUMA IMPORTANCIA
PARA MIM
DESDE JÁ MUITO OBRIGADO

ABS

EM BREVE ESTAREI POSTANDO MAIS TEXTOS LÁ

fabricio pontes said...

esqueci de botar o link,rsrsrs

http://balcaoisabelense.blogspot.com/

POESIA EM VOLTA said...

"São 16380 dias." Que serão mais 16380 dias... que os textos sejam também milhares, para sempre, e belos como este e tantos outros. Parabéns, atrasada. Não se esqueça de sua fã de longe e que ainda chegará perto. Vaz e poesia = valer a vida!
Abraço
Regina - Volta Redonda

Juh Vaz said...

Sou suspeita pra falar... elogiar... mas realmente fiquei emocionada...
Pudera eu tocar as pessoas com as palavras assim como vc faz...
lindo texto, assim como é lindo fazer parte da sua voda...
Te amo incondicionalmente

Juju Carabina

ka ramos said...

... ... ...
oh !

... como gosto de surpresas !
Lendo sem pretensão alguma... me deparo com IndIe.arIe India´s song e VAZ ...juntos !
Eyta, quase não aguento !

...LUZ ...te desejo luz ao quadrado !
KR